Parte 1 – Madame Valentim, uma lição de vida
Ipanema, anos 70. Na então bucólica rua Garcia D’Ávila (“lembra que tempo feliz, ai que saudade…”), muitos anos antes desta se corromper em rua de grifes com pretensões a Oscar Freire, uma mulher de peso, digo, uma mulher carregando o peso de várias sacolas de supermercado, esbravejava com a pequena criança que escapara de suas mãos e atravessava a rua correndo em direção à quitanda (onde hoje em seu lugar há mais uma das butiques da região, vizinha da Cartier, “…Ipanema era só felicidade…”), gritando-lhe pelo nome e fazendo ameaças.
A mulher, suarenta pelo esforço físico e pelo nervoso, entra esbaforida na quitanda sem saber se continuava a zangar com a criança ou se dividia a reprimenda com o português, dono do estabelecimento, que acabara de atender ao pedido da pequena, lhe dando uma bala soft (aquela da lenda urbana segundo a qual quem a engolisse sofria morte súbita). “Sua mãe já falou pra você não chupar essa bala, você se engasgou com ela e quase morreu!”, ralhou a mulher. “É só uma”, justificava o português, mais interessado em vender a bala do que na integridade física de sua pequena cliente. “Mas não pode nenhuma, porque semana passada ela se engasgou com uma dessas e ficou roxa!”, encerrou a discussão, pagando o quitandeiro e tomando a criança pelas mãos.
Enquanto a arrastava para fora da quitanda, a pequena peste, digo, a criança, se atira no chão e começa a gritar. “Levanta já daí!”, a mulher ordenou. A criança não só não levantava como elevava seus gritos. ”Levanta JÁ daí”, repetia a mulher, também carregando a voz. A criança? Sim, isso mesmo. A mulher tira o chinelo e lhe aplica uma boa chinelada no lombo, “levanta!”. Mais uma, “LEVANTA, anda!”, e nada. Levantou na terceira, decerto a mais bem dada.
Nisso, já parava gente para olhar o que era aquilo. Uma senhora se choca com a cena: “é sua filha?”, dirige-se ela à mulher. Coitada. “Graças a Deus não, por quê?”. “O que você é dela?”. “Sou a babá!”. “Você não pode fazer isso com ela, se eu soubesse quem é a mãe dela…”, tentou a ingênua senhora intimidar a mulher. “Barão de Jaguaribe, 241. Pode ir lá falar com a mãe dela! Se ela já tiver levantado da cama!”. Por essa a senhora não esperava. Apesar de ter pedido, convenhamos.
Mas quem era a tão impetuosa mulher, afinal? Madame Pimenta da Silva Valentim. Ou, simplesmente, Madame Valentim.
Curitiba, 2009. “Tia, é verdade que a Madame Valentim vem trabalhar aqui em casa?”, perguntava aflito o menino, engolindo em seco, com medo de uma resposta confirmativa a seus temores. Não, não era verdade. Mas a tia do menino não desmentiu sua irmã. Era necessário sustentar a história, a fim de incentivar o crédulo garoto a permanecer na linha. Algo do tipo: se comportou mal, “vou chamar a Madame Valentim pra te dar educação!”. Não quer obedecer? “Madame Valentim!”. Malcriação? “Olha a Madame Valentim!”.
E assim Madame Valentim permanecia no imaginário infantil daquele menino como um misto de Cuca e Super Nanny. Sua mãe lhe contava histórias reais da não muito ortodoxa educação que recebera de Madame Valentim, sua babá. E quem era a mãe do menino? Sim, aquela mesma menina de 30 anos antes, que se atirava no chão da Garcia D’Ávila até ser levantada na terceira chinelada. E essa menina era minha irmã mais velha, Material Girl. E minha outra irmã, Ternurinha, confirmava a nosso sobrinho, Afilhado, que viria acompanhada de Madame Valentim em sua próxima visita a Curitiba, incutindo no pobre do moleque um verdadeiro horror em relação a seu futuro e o desejo de nunca mais receber visitas de parentes do Rio (sabe-se lá quem podia vir junto!).
Madame Valentim foi babá de minhas duas irmãs. De mim, infelizmente, ela só cuidou até os dois anos de idade. Sim, infelizmente. Não, não foi aí onde tudo começou, uma espécie de complexo de Édipo com toques de masoquismo que perduraria até minha vida adulta, quando se passaria a se refletir em minhas relações (não muito) afetivas, agora num bizarro subtipo de complexo de Electra. Afinal, sempre fui uma criança adorável, gritar na rua e me jogar no chão nunca foi meu perfil. Comigo Madame Valentim era só alegria.
Alegria e cafuné. E seu bolo de chocolate. Foi Madame Valentim que me ensinou a dar beijo de esquimó. E a cantar A velha debaixo da cama. E me levava pra brincar na praça Nossa Senhora da Paz e no Jardim de Alah. E pra passar férias em sua casa na Baixada Fluminense. Onde, brincando com seus inúmeros sobrinhos, eu me sujava inteiro de terra e lama, saía correndo pela rua, experimentava todos os sabores de sacolé e soltava até pipa. Foi com Madame Valentim que fui a SP pela primeira vez! Eu tinha sete anos, e ganhara de meu pai uma excursão para ir com Madame Valentim ao Playcenter, Simba Safari e Cidade da Criança, um roteiro incrível para as crianças da classe média carioca dos anos 80 – o Playcenter era maior que o Tivoly Park, e mais perto e econômico que a Disney (além de ter o brinquedo sensação do momento, a boneca Eva!) -, numa época em que ainda não havia o Hopi Hari ou o Wet’n Wild tupiniquim.
Madame Valentim cuidou de mim oficialmente até meus dois anos de idade, porque, recém-casada, tinha novas obrigações domésticas. Porém, não tardou muito, lá estava ela de volta. Eu já estava um pouco mais crescido, mas era minha avó materna, vó Reginassa, que, em sua segunda infância, precisava de cuidados. E como eu tinha o privilégio de morar em frente à minha saudosa avozinha, também tirava uma casquinha de Madame Valentim. Ela alternava suas funções junto à minha avó com outra cuidadora, que pelos mais variados motivos mudava de tempos em tempos, tendo sido Madame Valentim a única a permanecer com vó Reginassa até o fim. Era sua fiel escudeira, e as duas eram praticamente o Sancho Pança e o Dom Quixote de saias.
De suas cuidadoras, sem dúvida Madame Valentim era a que minha avó achava mais divertida: quando não entrava em seu quarto pela manhã cantando alguma música do forró (tipo “talco no salão, talco no salão, pro forró ficar cheiroso e ter mais animação…”), contando sobre algum de seus rolos forrozeiros (Madame Valentim era então uma viúva. E das bem alegres…), ou falando qualquer besteira que fosse, vó Reginassa logo estranhava, num misto de preocupação e queixa: “Madame Valentim, o que houve? Você está quieta…”.
E assim ganhei mais alguns anos com Madame Valentim, bastava atravessar a rua. A casa de minha avó foi (lamentavelmente) demolida, elas se mudaram temporariamente para dois quarteirões adiante, na Aníbal de Mendonça, vizinhas de porta de minha avó paterna. O prédio que tomou o lugar da casa, projeto de meu pai (tudo em família), ficou pronto, e elas voltaram para lá. E toda essa farra familiar durou até minha adolescência, quando vó Reginassa se foi e Madame Valentim, arrimo de família, precisou se dedicar mais à sua própria avó e mãe.
E o tempo passa. E fiquei alguns anos sem ver Madame Valentim, nos falando apenas por telefone, basicamente nos aniversários, Natais e fins de ano. Mas felizmente Madame Valentim é sempre Madame Valentim, a despeito de tempos e distâncias, e a conversa invariavelmente começa desse jeito: “alô, é do bordel da Madame Valentim?”. “É sim, a gente está precisando de um viado aqui pra receber os clientes, está interessado?”. Com algumas variações no Natal: “alô, eu queria encomendar um bacalhau pra ceia…”. “Ah, aqui a gente só vende a vaca da sua mãe!”. Uma fofa, a Madame Valentim.
Parte 2 – Simplesmente Madame Valentim
E eis que, após muitos marcas e desmarcas, concretizou-se recentemente o tão esperado reencontro com Madame Valentim. Segunda mãe que é, tinha que mais uma vez relembrar de uma letra de música que escrevi para ela em minha tenra infância, cujo conteúdo nem me lembro mais (só sei dizer que para a sorte da música popular brasileira não segui a carreira de compositor) – “guardo aquele pedaço de papel até hoje, já está todo amarelado!”.
Recordou também o dia, ou melhor, meio da madrugada, em que o pequeno Pu, ardendo em febre, gritava por ela. Seus pais, Mamãe Chance Sellers e Papai Sabe Tudo, em vão tentavam acalmá-lo, “a gente está aqui, Pu!”. “Eu não quero vocês, quero a Madame Valentim!”, do alto de minha vozinha rouca e de toda a minha sinceridade infantil. Madame Valentim, que dormia no quarto do lado de fora da casa com seu recém-marido, não teve outra solução senão se levantar e acalmar a angustiada criança (terá sido pouco depois disso que ela deixou minha casa para se dedicar exclusivamente ao marido?). Minhas irmãs, por sua vez, quando nossa mãe ralhava com elas, respondiam na mesma hora: “você não pode brigar com a gente! Você não é a Madame Valentim!” – muito antes da Super Nanny, a boa e velha psicologia infantil da chinelada parecia funcionar bem…
Seja como for, sempre que Madame Valentim relembra esses episódios, Mamãe Chance Sellers permanece em silêncio. Sim, porque Madame Valentim faz questão de recordá-los sempre na frente de minha mãe biológica. Madame Valentim é terrível. Madame Valentim é de escorpião. A primeira de minha vida. Freud explica.
E tal instinto de competição não se aplica somente a seus filhos de criação (naturais, nunca os teve – segundo ela, porque não quis que passassem pelas mesmas dificuldades que viveu na infância. Mas isso já é matéria para outra crônica…). Certa vez, estava Madame Valentim em minha casa (na entressafra de cuidar de mim e de minha avó, ela ia eventualmente até lá para ajudar em alguns assuntos domésticos), conversando com Maria de Nazaré, sua sucessora em meus cuidados. “Ai, eu tenho trauma de tapa no rosto”, comentou Madame Valentim, lembrando da vez em que, quando criança, a mãe lhe tinha batido na cara. Pouco depois, estava Madame Valentim pendurando roupa no varal quando Naza, que nem era a de Renata Sorrah, chega e pergunta “é disso que você não gosta, né?”, e lhe dá um tapa no rosto, de leve, achando que estava fazendo um gracejo. Pra quê. Madame Valentim pegou a pobre pelo colarinho, jogou contra a parede e começou a bater a cabeça dela (sim, contra a parede): “não faz isso nunca mais! Eu falei que não gostava disso! Eu vou te matar!”. Felizmente, o vizinho de casa estava por perto, pulou o muro e apartou as duas. Imagina Madame Valentim trancada em um presídio! Coitadas das detentas.
Anos depois, já cuidando de minha avó, estava Madame Valentim em sua cozinha fazendo comida. A campainha da rua dispara. Ela vai atender – era Eunice, a moça que se revezava com Madame Valentim. “O que você estava fazendo na casa do juiz?”, perguntou, sem nem dizer oi, já se jogando pra dentro de casa, e pra cima de Madame Valentim. “Como assim? Eu estou aqui cozinhando!”, se defendeu Madame Valentim, sem entender nada. “Dona Reginassa viu você entrando na casa do juiz!”, rebate a outra. Nisso, minha avó, descendo as escadas, diz que tinha visto Madame Valentim entrando na casa de um vizinho, o tal do juiz. “Você saiu e me deixou sozinha?”, perguntou ela assustada – minha avó tinha medo de ficar sozinha, e quando achou ter visto, da sacada de seu quarto, Madame Valentim fora de casa, ficou apavorada e ligou para sua outra cuidadora, que nos dias de folga de vovó, trabalhava em outra casa da vizinhança. “Dona Reginassa, por acaso você tocou a campainha dos empregados? Eu estava aqui embaixo o tempo todo fazendo o almoço! Vocês duas estão doidas!”, indignou-se Madame Valentim. À parte, com sua colega, foi um pouco mais incisiva: “e olha, Eunice, você nunca mais faz isso de gritar comigo e abrir o portão em cima de mim, que eu dou na sua cara!”. E Eunice nunca mais fez isso. Para a sorte dela.
Embora Madame Valentim fosse sua cuidadora preferida – não só era a que lhe fazia dar boas risadas como também a única em quem confiava para coisas mais sérias como a levar ao médico e para fazer exames -, minha avó era por vezes injusta com ela, a exemplo do episódio contado acima. Quando terminava de arrumar a cozinha após o almoço, Madame Valentim ia até a sala, onde estendia um lençol sobre o tapete, punha um almofadão por cima e dava um cochilo enquanto minha avó assistia à TV (e também tirava suas pestanas vespertinas). Certa vez, vó Reginassa falava ao telefone com uma amiga: “espia só [o “olha só” de vovó], ela foi pro baile [o forró] ontem e agora está aqui dormindo. Não faz nada, só dorme! Chega até a roncar!”, cochichava ela, com a mão na boca do telefone. Ao desligar, Madame Valentim, que a tudo escutara enquanto fingia dormir, se revela: “falando mal de mim, né dona Reginassa?”. Sensível, se lamentou enumerando todas as suas qualidades de fiel e zelosa escudeira, quase levando minha avozinha às lágrimas pela injusta fofoca. Praticamente o Sancho Pança e o Dom Quixote…
Epílogo
Meu reencontro com Madame Valentim se deu há pouco. Ela passou um fim de semana em casa de minha mãe, vindo ela da Baixada e eu de São Paulo, especialmente para a especial ocasião. Um par de dias em que disputei com minha irmã Ternurinha os cafunés de Madame Valentim, como nos bons e velhos tempos. Em meio a muitos rodízios de comida, para prestigiar nossa ilustre convidada. Durante esses dias, Madame Valentim contou e recontou algumas das histórias aqui contadas e outras que ainda o serão, porque a fonte de contos de Madame Valentim é inesgotável.
Em meio à sessão nostalgia, a lembrança do dia em que ela saiu de nossa casa, deixando o pequeno Pu aos cuidados de outra babá (a Naza). “Você estava com sua mãe, de costas. Não tive coragem de me despedir de você, então acenei de longe para ela, em silêncio”, (re)contou Madame Valentim – na época ela não sabia que nunca nos deixaríamos realmente.
Pós-epílogo
Não querendo terminar essa crônica familiar com pieguismos óbvios, tentei pensar em outro desfecho para ela. Sem ideias, me ocorre ligar para sua protagonista, a mais indicada para me inspirar. Ela atende. “Alô, é do bordel da Madame Valentim?”. “É sim, a gente está precisando de um viado aqui, você não quer se candidatar à vaga?”.
Foto: goooooogle
Arquivo: novembro 2009

2 02UTC agosto 02UTC 2010 às 15:02 |
[...] contei de minha época da inocência em casa de Madame Valentim, na Baixada Fluminense, onde passava alguns dos juvenis dias de minhas férias. Dias em que eu [...]